Festa centenária transforma o Rio Vermelho em um grande altar a céu aberto e reafirma a força do candomblé e da cultura afro-baiana
O dia 2 de fevereiro amanhece diferente em Salvador. Ainda de madrugada, o bairro do Rio Vermelho já respira fé, silêncio respeitoso, cantos, flores e esperança. É o Dia de Iemanjá, uma das maiores festas do candomblé a céu aberto na Bahia, que em 2026 completa 104 anos de história.
Vestido de branco, o povo chega cedo. Tem quem vem pagar promessa, quem vem agradecer, quem vem pedir proteção, saúde, trabalho e paz. O mar vira altar. E Iemanjá, a Mãe das Águas, recebe cada gesto com devoção.
A festa é organizada pela Prefeitura de Salvador em parceria com a Colônia de Pescadores do Rio Vermelho, mas vai muito além da estrutura. É tradição, é ancestralidade, é resistência cultural passada de geração em geração.
Uma madrugada tomada pela fé

Antes mesmo do sol nascer, o presente principal de Iemanjá sai do galpão da Colônia de Pescadores. Por volta das 5h, ele chega à Praia de Santana, acompanhado por fogos, cânticos e muita emoção.
Durante todo o dia, o presente fica exposto para que fiéis deixem flores, perfumes e mensagens. No fim da tarde, os pescadores levam o balaio para o mar aberto, onde ele é entregue às águas, em um dos momentos mais simbólicos da celebração.
Tudo começa com Oxum
Na noite anterior, Salvador já entra no clima da festa. É quando acontece a entrega do presente de Oxum, no Dique do Tororó. Oxum é a senhora das águas doces, dos rios e cachoeiras, ligada ao amor, à fertilidade e à prosperidade.
Esse ritual prepara espiritualmente a cidade para o grande dia. É como se as águas doces abrissem caminho para o encontro com o mar, reforçando a ligação sagrada entre Oxum e Iemanjá.
Flores, cores e significados



Nada é por acaso no Dia de Iemanjá.
O branco simboliza paz e proteção.
O azul lembra o mar e o acolhimento da mãe.
As rosas representam carinho e devoção.
Os perfumes são sinal de cuidado e respeito.
Cada oferenda carrega uma história, um pedido ou um agradecimento.
Uma festa que vai além da religião
O Dia de Iemanjá reúne gente de todas as crenças. Tem candomblé, umbanda, católicos, evangélicos, espiritualistas e até quem não segue religião nenhuma, mas respeita a força da tradição.
Além da fé, a festa movimenta o bairro, atrai turistas, fortalece a cultura afro-brasileira e reafirma o direito de celebrar livremente as religiões de matriz africana.
Mais que uma festa, o Dia de Iemanjá é memória viva, identidade e resistência. É o povo falando com o mar. E o mar ouvindo.


