Lavagem do Bonfim: a festa do povo que há mais de 200 anos caminha entre fé, tradição

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A maior celebração popular e religiosa da Bahia chega viva, pulsante e cheia de significado nas ruas de Salvador. A Lavagem do Bonfim atravessa séculos mantendo algo que não se perde: a força do povo.

Nesta quinta-feira (15), as ruas que ligam a Conceição da Praia, no Comércio, até a Colina Sagrada do Bonfim voltam a se transformar em um grande tapete branco. É ali que fé, cultura, sagrado e profano caminham juntos, lado a lado, no mesmo compasso.

Gente simples, famílias inteiras, baianas, fiéis, curiosos, devotos e admiradores seguem juntos num encontro que mistura oração, música, tradição e respeito. É a Bahia em sua forma mais verdadeira.

Uma tradição que nasceu do povo e segue do povo

A Lavagem do Bonfim tem origem no século 18 e carrega fortes raízes africanas. No candomblé, a festa reverencia Oxalá, orixá da criação, da paz e da fé. No catolicismo, é dedicada ao Senhor do Bonfim, representação de Jesus Cristo crucificado.

Duas crenças diferentes, mas que aqui não brigam. Pelo contrário: se abraçam. E talvez esteja aí o maior símbolo dessa festa — a convivência, o respeito e a diversidade que fazem da Bahia um lugar único.

Hoje, mais de um milhão de pessoas participam do cortejo todos os anos, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações e se tornou patrimônio imaterial do Brasil.

O ritual que emociona e atravessa gerações

Muita gente conhece a Lavagem do Bonfim pelas imagens das baianas lavando as escadarias com água de cheiro, flores e alfazema. Mas nem todo mundo sabe o significado por trás desse gesto.

O ato simboliza purificação, renovação e pedido de proteção. É um ritual que mistura elementos do catolicismo e do candomblé, reforçando a identidade religiosa e cultural do povo baiano.

Outro símbolo forte da festa são as fitinhas do Bonfim. Amarradas no gradil da igreja ou no braço, elas carregam pedidos silenciosos. A tradição manda dar três nós, fazer três pedidos e só retirar a fita quando ela cair sozinha.

Uma festa que vai além da religião

A Lavagem do Bonfim não é só fé. É também cultura popular, música, comida, encontros e reencontros. É o povo ocupando a rua, celebrando a vida, a esperança e a própria história.

É comum ver quem sai de bairros distantes, como Cajazeiras, acordar cedo para participar da caminhada. Gente que aprendeu com os pais, com os avós, e hoje ensina aos filhos que essa festa não se explica — se sente.

Bonfim: história que segue viva

Em 2026, a Basílica Santuário Nosso Senhor do Bonfim completa 272 anos de construída. Já a imagem original do Senhor do Bonfim, uma representação de Jesus Cristo crucificado, chegou a Salvador há 281 anos, tornando-se um dos maiores símbolos de devoção do país.

Mesmo depois de tanto tempo, a Lavagem segue atual, forte e necessária. Porque enquanto houver povo na rua, fé no coração e respeito às tradições, essa festa vai continuar caminhando.

A Lavagem do Bonfim não é só de Salvador. É da Bahia. É do povo. É nossa.